Vou começar esse texto com uma provocação inquietante: o tempo coloca cada rei em seu trono e cada palhaço em seu circo. Explico-me: Luciano Huck, apresentador, empresário, homem de sete milhões de reais mensais somados os acordos dentro e fora da Globo, conforme levantamento do Observatório da TV. Sete milhões. Por mês. Não é erro de digitação. É o tipo de número que convida a uma pausa filosófica antes de qualquer outra consideração.
Vamos fazer essa pausa.
Luciano Huck construiu parte considerável de sua fortuna e de sua reputação popular produzindo um espetáculo chamado Caldeirão, que durante anos funcionou como um teatro da pobreza para entretenimento das classes médias. O mecanismo era simples, quase elegante na sua brutalidade: você trazia uma família pobre, contava sua história com trilha sonora emocional, e então submetia essa família a alguma prova de humilhação controlada: dançar, equilibrar, performar ridículo, e entregava um fusca reformado ou uma casa decorada pela equipe. A plateia aplaudia. A família chorava. O ibope subia.
Uma idosa vestida de Michael Jackson dançando Billie Jean num sábado à noite. Em troca de um fusca 1968. Anote isso num papel e leia de novo.
O que é preciso compreender aqui não é apenas a crueldade, que pode ser relativizada com aquele argumento cansativo de que “a família aceitou participar”: argumento que ignora tudo o que a sociologia e a psicanálise ensinaram sobre consentimento e desigualdade de poder. O que é preciso entender é a função social do espetáculo: ele converte pobreza em entretenimento e apresenta ao espectador uma ilusão reconfortante de que a mobilidade social existe e é alcançável, por esforço, por sorte, por estar no programa certo. Sai a estrutura, entra a narrativa do mérito. Sai a política, entra o fusca. É uma operação ideológica sofisticada, e provavelmente involuntária, que é quando ideologia funciona melhor.
Existe aqui uma contradição que merece ser observada com calma, porque não é simples hipocrisia. É banal, todo mundo tem um pouco. É algo mais estrutural. É a mentalidade do reformador-espetáculo: a ideia de que pobreza se resolve por intervenção dramática e individual, não por política pública silenciosa e sistemática. O fusca é visível. A transferência de renda não fotografa bem. E aí entra a bet.
Luciano Huck, que se preocupa tanto com as finanças da população pobre, divulga casas de apostas. Isso enquanto influenciadores da órbita de Virginia e Neymar fazem o mesmo, destruindo o orçamento de famílias que apostam o aluguel numa virada de mesa. As apostas esportivas online custaram aos brasileiros mais pobres, que são também os mais vulneráveis a esse tipo de armadilha, uma fortuna que nenhum programa de transferência de renda compensaria facilmente.
Os dados sobre o impacto das bets na renda das camadas mais baixas são, digamos, inconfortáveis de contemplar ao lado de uma fala sobre a ineficácia do Bolsa Família. Mas esse tipo de contemplação exigiria uma coerência que o espetáculo não comporta.
Lembro de uma observação do psicanalista Jurandir Freire Costa, trabalhando a partir de outro contexto, mas pertinente aqui, sobre como a classe média brasileira desenvolveu uma relação ambígua com a pobreza: compaixão e desconforto, caridade e distância, vontade de ajudar e necessidade de que o pobre continue recognoscível como pobre, ou seja, como alguém que recebe ajuda, não como alguém com direitos. O Caldeirão operava dentro dessa lógica e seu novo Domingo antes do Fantástico, idem.
O ataque ao Bolsa Família também, mas pelo lado oposto: agora o pobre que recebe do Estado é o que não se esforça, enquanto o que dança fantasiado numa tarde de sábado demonstra virtude. É uma teologia da pobreza disfarçada de pragmatismo econômico. E o que dizer do patrocínio dos bancos do Vorcaro? Isso fica como pergunta retórica, porque há limites para o que cabe num ensaio sem virar um processo judicial. O tempo coloca cada rei em seu trono e cada palhaço em seu circo.
O circo continua. Mudou o formato, não a lógica.


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