Alguém precisaria explicar isso a quem nunca precisou hesitar antes de vestir a camisa da seleção fora de uma Copa. Porque houve anos em que colocar aquela combinação cromática no corpo era, dependendo do bairro, uma declaração política. Uma filiação implícita. Uma espécie de confissão involuntária. E isso não é exagero dramático de cronista com tempo livre; é o tipo de coisa que acontece quando um símbolo coletivo é capturado por uma facção e passa a funcionar como divisa tribal.
Os franceses diriam récupération, com aquele nariz levantado que têm para nomear processos que envolvem esvaziamento ideológico. O movimento contracultural vira moda, a moda vira publicidade, a publicidade vira tudo aquilo que o movimento original queria contrariar. O verde e amarelo não chegaram a esse ciclo por acidente. Foram levados. Com intenção, com método, com aquela eficiência que o Brasil às vezes demonstra nas piores direções.
E agora o governo quer de volta. Que bela frase, aliás:quer de volta. Como se cores fossem propriedade transferível, como se a nação fosse uma herança em inventário, como se bastasse um ato administrativo para apagar quatro anos de associação simbólica. Quem já tentou recuperar uma palavra que virou xingamento sabe como isso funciona: muito mal, muito devagar, com muita resistência subterrânea que nenhum decreto alcança.
Freud, nesse ponto específico, teria algo a dizer sobre a persistência do afeto. Que o conteúdo de uma ideia pode ser reprimido, mas o afeto ligado a ela vai aparecer em outro lugar, deslocado, irreconhecível, igualmente potente. Não estou dizendo que o Brasil precisa de análise. Embora, olhando friamente, a proposta não parecesse descabida. Estou dizendo que simbologia funciona assim: não se recupera por decreto, se reconquista por uso, por tempo, por ressignificação lenta e acumulada. E isso exige paciência histórica que nenhum mandato de quatro anos acomoda.
A história dos símbolos nacionais é sempre, em alguma medida, uma história de disputa. A Marselhesa foi proibida, exilada, reabilitada. A suástica era símbolo budista de sorte antes de virar aquilo que virou, e ninguém em sã consciência sugere que se a recupere agora por decreto de boa vontade. O Ó de Portugal entrou em desuso depois que foi associado ao salazarismo, é a natureza do símbolo: ele absorve o contexto em que circula e não tem borracha.
O verde e o amarelo vão se recuperar, provavelmente. Os símbolos nacionais têm uma resiliência particular porque não pertencem a ninguém com exclusividade, esse é, curiosamente, o mesmo problema e a mesma solução. Mas vai demorar mais do que qualquer campanha governamental prevê, e vai acontecer à revelia dela. Vai acontecer quando uma criança que nasceu em 2020 pegar uma camisa sem saber de nada disso e usá-la para jogar bola na rua, e a cena parecer normal de novo. Vai acontecer por esquecimento gradual, não por restauração oficial.
Enquanto isso, o governo lança campanhas. As pessoas debatem nas redes com a profundidade de uma piscina de academia. E as cores continuam suspensas nesse limbo estranho, carregando simultaneidade de sentidos que se excluem, como aquelas palavras que significam exatamente o oposto de si mesmas dependendo do contexto. O verde pode ser esperança ou ciúme. O amarelo pode ser ouro ou covardia. O Brasil, como de hábito, insiste em ser as duas coisas ao mesmo tempo e chamar isso de identidade.
Não é bem identidade. É ambiguidade com boa iluminação.
Grande lance talvez, não seja as cores terem sido roubadas, e sim a ideia de que havia uma essência nacional limpa e unitária a ser representada por elas. O Brasil sempre foi contraditório demais para caber em duas cores. O que houve foi uma ilusão confortável, brevemente suspensa, e agora a proposta é reconstituí-la. Uma ambição adorável e ligeiramente ingênua, o tipo de coisa que só uma nação com memória curta e futuro longo consegue sustentar sem ironia. Aqui, até as cores precisam de anistia.


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