Imagine a fama antes do Wi-Fi. Antes do TikTok, dos filtros de cachorrinho e da necessidade de registrar cada almoço como se fosse uma obra-prima da gastronomia molecular. Havia um tempo em que ser famoso significava, veja só, viver a experiência em vez de editá-la em tempo real. Pois é exatamente neste túnel do tempo que “All I Can Say” nos joga, câmera na mão e sem pedir licença para o algoritmo.
Shannon Hoon, vocalista do Blind Melon, decidiu gravar a própria vida com um camcorder noventista sem imaginar que, décadas depois, isso viraria um filme feito de fragmentos caleidoscópicos. A obra se apresenta como uma cápsula curiosa de uma fama ainda analógica. Nada de stories ensaiadinhos ou TikToks coreografados. Em vez disso, temos um gato saindo da moita, um roadie dormindo no carrinho de roupa suja e o Lenny Kravitz lambendo a lente, provavelmente sem imaginar que isso seria eternizado para o mundo (ou talvez exatamente por isso).
A graça está no contraste: enquanto o rock alternativo surfava na MTV e Blind Melon fazia todo mundo cantar No Rain com uma abelhinha dançando, Hoon preferia registrar aquilo que não virava manchete. No meio do turbilhão, havia tempo para a vida real, com toda a sua poesia desengonçada. O filme, montado após sua morte trágica em 1995, mostra que fama nenhuma impede alguém de continuar tentando entender o que diabos está fazendo aqui.
O resultado é um retrato íntimo, desajeitado, honesto e por vezes engraçado de alguém que registrou as próprias obsessões, dúvidas e surpresas. Uma lembrança de que já existiam influenciadores antes da internet, só que eles não chamavam isso de “conteúdo”. Chamavam de viver.
Mas, me diga uma coisa: o que você faz quando sente que a vida está passando rápido demais? Quando tudo é um turbilhão de luzes, sons, gente gritando seu nome e um vazio que, por mais cheio que esteja, insiste em sussurrar no seu ouvido? A maioria de nós, meros mortais, escreve um diário. Um diário com frases curtas, do tipo “hoje choveu”, ou “a feijoada estava salgada”. Não é muito, mas serve.
E o que é mais íntimo do que um confidente? Você fala o que quer, mostra o que quer, sem filtro. E é isso que temos aqui! Não é um documentário sobre ele. É um documentário dele. É a vida vista pelo olho mágico, e um tanto torto, do próprio Hoon. É como se ele, prevendo a efemeridade daquela fama toda — aquele furacão do “No Rain”, a menina abelha dançando em toda a MTV –, resolvesse gritar para o futuro: “Olha só! Estive aqui! E foi mais ou menos assim!”
É uma aula de como encontrar poesia no chão de um ônibus de turnê, na expressão de um roadie dormindo num carrinho de lavanderia, num gato saindo de um canteiro. Ele estava, com sua câmera, garimpando a realidade por trás do mito. E o mito, no caso dele, estava sendo construído a jato, enquanto ele mesmo tentava colocar os pés no chão.
E aí está o humor, o humor ácido e doce da coisa: a constatação de que a fama é, no fundo, um espetáculo profundamente ridículo. Ele mesmo diz, com a lucidez de quem está dentro do olho do furacão: “Acho que as pessoas estão analisando isso profundamente demais”, sobre a menina-abelha. Ele via o absurdo! E ria dele, com sua câmera na mão.
Claro, há a tragédia. Ela paira sobre cada frame, porque nós, o público do futuro, sabemos o final. Sabemos que aquele jovem forte, de boné e olhos intensos, vai perder a batalha contra seus próprios fantasmas. Mas o filme, inteligentemente, não mergulha no vale sombrio. Ele celebra a jornada. Ele mostra o artista em busca de algo, seja uma melodia, um enquadramento perfeito, ou apenas um momento de sinceridade em meio ao caos.
É um convite! Um convite para entrar no ônibus, pegar uma carona no turbilhão e ver, através dos olhos de um sonhador com os pés no chão de barro, o que era ser jovem, famoso e perdido nos anos 90, antes da internet achatar todas as experiências em likes e shares.
É um testemunho. Um testemunho engraçado, comovente, estranho e profundamente humano. E no final, você não chora pela morte de Shannon Hoon. Você celebra, com um sorriso triste e grato, a vida intensa e curta daquele homem que, no meio de tudo, teve a genialidade de apertar “REC” e dizer: “Olha só como é que é.”
É e fato como a tradução em português diz: tudo o que ele podia dizer. E que sorte a nossa que ele disse.


0 Comentários