A Anatel, essa divindade moderna das comunicações, acaba de decretar o fim de uma instituição brasileira mais duradoura que muitos ministérios e planos econômicos: o orelhão. Sim, aquele objeto que já foi mais útil que um parente e mais presente que um amigo. Dizem os números frios (que, como todos sabem, não mentem, mas também não contam histórias) que restam apenas 38 mil dessas relíquias no país.

Lembro-me como se fosse ontem e era, de fato, ontem que eu pensava nisso :da era de ouro do orelhão. Era o palco de dramas intensos: o namorado esperando a ligação a cobrar, a mãe avisando que o jantar estava pronto, o amigo combinando o ponto de encontro. A ansiedade de escutar aquela gravação: “Insira mais uma ficha para continuar a ligação”. Era como um ultimato do destino.

O orelhão era também um espaço democrático. Abrigou desde o executivo atrasado até o poeta inspirado, desde o noivo apaixonado até o político fazendo promessas (que, aliás, eram as únicas ligações que realmente não tinham custo algum para a sociedade).

A Arquitetura da Solidão

Chu Ming Silveira, a arquiteta que concebeu essa maravilha, provavelmente não imaginava que seu design futurista acabaria como cenário para selfies de jovens que nunca discaram um número na vida. O formato oval, diziam, tinha qualidades acústicas. Mas sua verdadeira função social era outra: era o único lugar onde um brasileiro podia falar alto sem que ninguém achasse que estava discutindo. Era uma cabine de discursos solitários, um confessionário leigo.

As empresas agora estão liberadas da “obrigação” de manter esses aparelhos. É compreensível. Manter um orelhão hoje deve ser como cuidar de um dinossauro em um zoológico: caro, inútil e levemente melancólico.

Mas há uma certa poesia na resistência dos últimos 4 mil orelhões “em manutenção”. O que significa exatamente “manutenção” para um objeto que já foi esquecido pela tecnologia? Talvez seja apenas um funcionário que passa uma vez por mês para tirar as teias de aranha e limpar os pichadores. Ou talvez seja um psicólogo que vem conversar com o aparelho, para ajudá-lo a aceitar sua obsolescência.

Os orelhões sobreviverão apenas até 2028 em lugares “sem outra opção de comunicação”. Ou seja, restarão apenas onde o progresso ainda não chegou. Ironicamente, serão os lugares mais conectados com o passado que manterão essa relíquia do passado.

Nas grandes cidades, as carcaças vão desaparecendo. E com elas, desaparece também aquela figura humana característica: a pessoa dançando dentro da cabine para fazer cair a ficha que teimosamente não caía, o ritual de bater no aparelho, a arte de falar rápido antes que o tempo acabasse. O Brasil perde assim não apenas um objeto, mas um pedaço de sua coreografia urbana. O orelhão vai virar peça de museu, tema de filme (já está, aliás), curiosidade histórica.

E eu me pergunto, em tom bem-humorado mas com uma ponta de nostalgia: onde vão agora os sem-ficha, os sem-celular, os sem-pressa? Onde vão encontrar aquela privacidade pública, aquele isolamento no meio da rua? O progresso é implacável. Desliga uma época e inicia outra. Mas fica o registro: o orelhão não foi apenas um telefone. Foi um ponto de encontro, um refúgio, um testemunha mudo de milhões de histórias que começavam com a pergunta: “Alô, quem fala?”

P.S.: Quem quiser se despedir, corra até o orelhão mais próximo. Mas não se assuste se ouvir um tom contínuo. É o som do passado, discando para lugar nenhum.