Esquecerei os parênteses e os travessões enquanto forma pedante de ressaltar certas informações num texto. Prestarei muita atenção para nunca começar um discurso no gerúndio. Lerei um jornal de humor ou um clássico da literatura de Machado de Assis da fase madura de seis em seis meses.
E finalmente este ano mergulharei a lança de minha curiosidade em Cinquenta Tons de Cinza. Buscarei achar um meio termo entre uma fabulação mínima, porém eficiente, e uma longa, mas não-digressiva. Farei de tudo para escrever ao menos 300 palavras ao dia (e aqui, uma vez por semana, fora a margem de erro!).
Encontrarei um sítio que me aceite como hóspede para enfim encontrar a paz e poder produzir mais e melhor, como apregoava Faulkner.
Tentarei não me irritar ao ver na tevê Paulo Coelho visitando a Moldávia em companhia do William Bonner no Globo Repórter. Dispensarei a linguagem tosca ao me referir aos autores de livros de auto-ajuda.
Perdoarei os organizadores de estantes dos discos que insistem em colocar Molejo ao lado de Beatles: duas coisas que não tem comparação, claro! Olharei com grande complacência para os atores, músicos, publicitários, jornalistas esportivos e ginecologistas que se entregarem à elaboração de material ficcional.
Serei um guardião da verossimilhança. Lançarei mão do recurso “Deus ex-machina” apenas se Deus quiser. Usarei com parcimônia o ponto-e-vírgula; exceto nos casos em que a Gramática o permitir. Fugirei como o diabo da cruz da expressão “por conta de(o)”.
Buscarei o verdadeiro sentido da palavra metanoia e, se o encontrar, talvez até mude de vida, quem sabe. Aprenderei a usar corretamente a crase, essa pequena guilhotina que decapita a dignidade de qualquer texto quando mal empregada.
Terei uma atitude civilizada e racional para com os editores, com os revisores que sangram meus manuscritos de caneta vermelha, com os leitores que abandonam um conto na terceira linha, e com todos aqueles que, de boa ou má fé, se interpõem entre o que escrevo e o que quero dizer.
Talvez estas demandas sejam demais para um escriba mequetrefe.
Então, como tudo o que escrevi aqui é ficção, pode ser que esteja fingindo ou mentindo.
Logo, não prometo nada,
Prazer, sou Marcus Vinicius Leite.
Mini bio:
Marcus Vinicius Leite é daqueles sujeitos perigosíssimos: pensa. E pior, publica. Jornalista, cartunista, escritor, psicanalista e assessor de imprensa, resolveu cometer o equívoco de juntar cultura, comportamento humano e comunicação numa mesma cabeça. O resultado é uma espécie de congestionamento intelectual com buzina filosófica.
Autor de Pensatas Curtas Para Inteligências Longas, Ironia é um Estado de Espírito de Porco e Freud Explica – Eu Só Conto, escreve como quem fuma um cigarro imaginário na varanda da própria consciência: desconfiando de tudo, principalmente das certezas. Sua crônica urbana passeia entre o divã e o botequim, onde Freud encontra Aldir Blanc e ambos saem devendo a conta.
Na psicanálise descobriu por que ninguém acredita nisso. Entre projetos culturais, assessorias, livros, palestras e o canal Pensatas Curtas, dedica-se a observar o ser humano com o carinho clínico de quem olha um vazamento no teto: sabendo que cedo ou tarde aquilo pinga.
Seu trabalho mistura humor, reflexão e humanidade porque a tragédia sozinha fica insuportável e a felicidade raramente rende boa literatura. (Fale com o autor via Instagram ou pelo email curtaspensatas@gmail.com)


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