Às vezes a política brasileira produz uma imagem que parece escrita por um humorista ruim. O palco está pronto. As câmeras ligadas. Os púlpitos iluminados. Os microfones à espera. Só faltam os candidatos.
Às vésperas do primeiro turno de 2026, a Globo realiza nesta quinta-feira, 1º de outubro, seu debate presidencial. Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema confirmaram presença. Lula decidiu não participar e escolheu dar uma entrevista ao Flow Podcast no mesmo horário.
A pergunta, portanto, já não é apenas por que um candidato falta ao debate. É outra:
O que acontece com uma eleição quando os candidatos deixam de precisar convencer quem pensa diferente deles? A cadeira vazia parece uma ausência. Mas pode ser justamente a presença mais eloquente da campanha.
O perigo de encontrar o adversário
O debate tem uma característica inconveniente: o candidato não controla completamente o que acontece. Pode preparar respostas, decorar números e ensaiar gestos. Mas existe outro candidato do outro lado do palco. Existe o jornalista. Existe o tempo. Existe o imprevisto. Existe a frase que sai errada. E existe o trecho de oito segundos que amanhã estará circulando pelo celular de milhões de pessoas. O debate é uma pequena fábrica de acidentes.
Em 2026, isso ficou evidente. No primeiro debate presidencial, Lula, Flávio Bolsonaro e Zema não compareceram. Os três candidatos presentes tiveram, portanto, a curiosa experiência de disputar uma eleição contra adversários que não estavam na sala. É quase como disputar uma partida de futebol contra três cadeiras. As cadeiras, aliás, não responderam.
A cadeira vazia é antiga
Seria fácil culpar a internet. Não dá. Fernando Collor faltou aos debates do primeiro turno de 1989. Fernando Henrique Cardoso não participou dos debates do primeiro turno de 1998. Em 2006, Lula também faltou ao primeiro debate da Band. A cadeira vazia já existia. O que mudou foi o tamanho da sala.
Antes, o candidato dependia da televisão para entrar na casa do eleitor. Hoje pode construir a própria audiência, gravar o próprio vídeo, escolher o enquadramento, editar a fala e distribuir o conteúdo por Instagram, TikTok, YouTube, WhatsApp e podcasts. Pode escolher a pergunta. A resposta. O cenário. E, principalmente, quem não entra. Há uma diferença entre falar diretamente com o eleitor e falar exclusivamente para ele. A primeira é comunicação. A segunda pode virar propaganda de condomínio.
O eleitor que não quer ser convencido
A campanha deixou de ser apenas uma disputa por convencimento. O eleitor também virou audiência, militância, compartilhamento. O candidato já não precisa necessariamente transformar o adversário em eleitor. Pode transformar o próprio eleitor em cabo eleitoral. “Eu sou deste lado” começa a valer tanto quanto “eu concordo com este programa”. E as redes ajudam nisso.
Um ataque vira meme. Uma resposta vira corte. Uma gafe vira postagem. Uma frase de podcast ganha mais vida do que uma entrevista inteira. O algoritmo não lê a Constituição. Lê comportamento. Se a indignação produz atenção, ganha espaço. Se a humilhação produz compartilhamento, vira conteúdo. A tecnologia não inventou a raiva brasileira. Apenas deu infraestrutura a ela.
A inteligência artificial também entrou na campanha
Em 2026, há ainda um novo problema: a inteligência artificial. A campanha eleitoral passou a disputar não apenas atenção, mas autenticidade. Quem disse? Disse mesmo? Foi editado? É real? É montagem? É uma fala reconstruída? O candidato pode não estar no debate e, ainda assim, aparecer na tela dizendo algo que nunca disse. A cadeira vazia ganhou concorrência. Agora existe também o candidato que nunca esteve naquela sala e mesmo assim consegue aparecer nela.
O que o debate ainda oferece
O problema não é a televisão. Nem a internet. O problema é que uma democracia não é feita apenas de gente falando para quem concorda. O debate obriga o candidato a encontrar alguém que não escolheu. O adversário pergunta. O jornalista insiste. O candidato responde. O eleitor compara. É uma experiência simples, quase rudimentar. Mas há uma coisa que ela oferece e que nenhum canal próprio consegue reproduzir completamente: a falta de controle.
Nas redes, podemos seguir quem pensa como nós, bloquear quem pensa diferente, silenciar quem incomoda. No debate, não. O argumento que você não escolheu aparece na sua frente. E isso pode ser bastante desagradável. Também pode ser democrático.
A eleição termina. O vizinho fica.
No dia 4 de outubro, o Brasil vota. Depois da apuração, o candidato derrotado continuará existindo. O eleitor do outro lado também. Seu colega de trabalho. Seu irmão. Seu cunhado. Seu vizinho que estaciona mal. O eleitor que ontem era inimigo volta a ser cidadão amanhã. A política costuma esquecer isso. O adversário não desaparece quando termina a eleição. A política começa justamente quando acaba a campanha. Talvez os debates estejam ultrapassados. Talvez precisem mudar. Talvez já não tenham a importância que tiveram. Mas há uma hipótese mais incômoda:
talvez os candidatos tenham descoberto que é possível disputar uma eleição sem entrar na sala onde está o adversário.
Basta construir uma sala maior. Uma sala sem pergunta inconveniente. Sem contraditório. Sem silêncio constrangedor. E com uma plateia que já comprou ingresso antes mesmo de saber qual será o espetáculo. O problema é que democracia nunca foi exatamente um espetáculo para quem já comprou ingresso. Era, ou deveria ser, a arte desagradável de dividir a mesma sala com quem não pensa como você. Agora podemos escolher a sala. A pergunta. A resposta. Até o público.
Só não sabemos ainda o preço de uma eleição em que ninguém mais precisa convencer ninguém. E cadeira vazia não seja o sinal de que os debates morreram. Mas, sim, um sinal de que eles descobriram para que serviam. E, justamente por isso, alguns candidatos preferem não sentar.


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