Durante 72 anos, sempre houve um Sarney com mandato.
Não necessariamente o mesmo Sarney, porque seria exigir demais até de uma família politicamente muito bem treinada. Mas havia um. Às vezes dois. Em certos períodos, mais de um. O importante é que a cadeira nunca ficou propriamente órfã. Agora ficou. A partir de 2027, nenhum integrante da família Sarney terá mandato eletivo. Roseana Sarney perdeu a eleição para o Senado em 2026, terminou em terceiro lugar e, com isso, encerrou (pelo menos por enquanto) uma das mais longas temporadas de uma família na política brasileira. Setenta e dois anos não cabem numa notícia simples.
Quando José Sarney entrou na Câmara dos Deputados, o Brasil ainda era outro Brasil. Brasília nem havia completado uma década como capital, Juscelino Kubitschek estava no governo, a televisão ainda era novidade doméstica e ninguém imaginava que, algumas décadas depois, aquele deputado maranhense chegaria ao Palácio do Planalto. Sarney foi deputado, governador, senador e presidente da República. Depois da Presidência, voltou ao Senado e permaneceu por lá até 2015. Foram décadas suficientes para atravessar praticamente todos os capítulos da política brasileira contemporânea sem precisar mudar de sobrenome. Mudaram os partidos, os presidentes, os regimes, os slogans. E Sarney continuou.
Começou na UDN, passou pela Arena durante a ditadura, foi para o PMDB, chegou à Presidência e depois voltou ao Senado, dessa vez pelo Amapá. A política brasileira trocou de roupa algumas vezes. Ele, aparentemente, conhecia todos os alfaiates. Mas uma família não atravessa sete décadas apenas porque o patriarca é longevo. É preciso haver sucessão. E houve.
Roseana foi deputada federal, governadora do Maranhão, senadora e novamente governadora. Em 2022, voltou à Câmara dos Deputados. Em 2026, tentou retornar ao Senado. Não conseguiu.
Seu irmão, José Sarney Filho, o Zequinha, também encontrou na política uma atividade de longa duração. Foi deputado estadual, deputado federal por nove mandatos e ministro do Meio Ambiente em dois governos diferentes. O sobrenome, nesse ponto, já não parecia apenas sobrenome. Parecia currículo. Na terceira geração veio Adriano Sarney, neto de José Sarney, que ocupou dois mandatos como deputado estadual no Maranhão.
É aí que a notícia fica maior do que a eleição. Pela primeira vez desde o início da trajetória política de José Sarney, nenhum membro da família estará sentado numa cadeira conquistada pelo voto. Não é pouca coisa. Em 72 anos, o Brasil teve ditadura e democracia, inflação de três dígitos e Plano Real, AI-5 e Constituição de 1988, Tancredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro e novamente Lula.
O Maranhão mudou. A política, a comunicação, o eleitor até a campanha mudou. Houve santinho, comício, rádio, televisão, jingle, marqueteiro, internet, rede social e, provavelmente, algum assessor dizendo que era preciso “humanizar o candidato” enquanto o candidato tentava lembrar onde havia colocado o celular. O sobrenome permaneceu. É isso que torna os 72 anos mais interessantes do que a derrota de uma candidata.
Porque a história dos Sarney não é apenas a história de uma família que ganhou muitas eleições. É também a história de como determinadas famílias brasileiras conseguiram transformar presença política em continuidade política. Não há ilegalidade em parentes disputarem eleições. A democracia não proíbe o filho de disputar porque o pai disputou. Nem o neto porque o avô já esteve lá. A questão é outra. É quando a exceção começa a parecer regra.
Quando o sobrenome passa de identificação pessoal a espécie de legenda informal. Quando o eleitor já conhece a família antes de conhecer o candidato. Quando a árvore genealógica começa a parecer uma urna eletrônica. Os Sarney não inventaram a política familiar brasileira. Longe disso. A política brasileira possui uma coleção tão extensa de sobrenomes hereditários que, se o país resolvesse cobrar royalties por árvore genealógica, talvez finalmente equilibrasse as contas públicas.
Mas os Sarney levaram a experiência a uma duração particularmente impressionante. Setenta e dois anos. É quase uma vida inteira.
Uma pessoa poderia nascer em 1954, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, ver os filhos crescerem e se aposentar sem conhecer um Maranhão politicamente livre do sobrenome Sarney em algum mandato eletivo. Agora, pela primeira vez, essa pessoa poderá assistir à política maranhense sem encontrar um Sarney na urna como candidato eleito. Não significa que o sobrenome desapareceu. Nem que a influência desapareceu. Nem sequer que a família tenha abandonado a política.Significa apenas que, pela primeira vez em 72 anos, o mandato acabou antes de aparecer outro Sarney para ocupá-lo.
E, finalmente, posso usar uma velha piada que publiquei em Pensatas Curtas Para Inteligências Longas, em 2007: “E o Sarney, nada, hein?!”
É uma novidade tão grande que o Brasil talvez precise de alguns minutos para se acostumar. Ou, conhecendo a política brasileira, apenas esperar a próxima eleição. Porque uma família pode ficar sem mandato. Mas a política brasileira, esta nunca fica sem parente.


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