Quando falamos em infância, muita gente lembra das tardes no parquinho, da saudade da chupeta, ou até mesmo dos castigos que, de alguma forma, não doeram tanto quanto o fim da novela da tarde. Mas, e quando pensamos em como esses momentos nos moldam? Parece coisa de psicanalista, mas é mais simples do que parece.

A teoria do apego, que foi um conceito desenvolvido por John Bowlby, revela que, nas primeiras fases da vida, a maneira como nos relacionamos com os adultos ao nosso redor. Geralmente nossos pais ou cuidadores — define a forma como lidamos com os outros ao longo da vida. E não pense que essa ligação é uma coisa tão inocente como um filme da Disney. Não! Ela pode ser uma base segura ou um campo minado, onde, mais tarde, a gente vai tentar entender o que fazer com aquelas emoções que surgem, sempre. Porque, se alguém lhe ensinou a se apegar, a se lançar, a confiar, essa será a lente com que você verá o mundo, até o fim dos tempos, ou até sua próxima terapia.

Na vida adulta, esse ‘vínculo’ não desaparece, muito pelo contrário: ele vai se arranjar com outros amores, amigos e até no trabalho. E, como você pode imaginar, se a base foi instável, as relações mais à frente podem ser um verdadeiro caos. Mas, como sempre, somos os próprios arquitetos de nossa vida. A infância é o esboço. O resto, o acabamento.

E, no meio desse palco, surgem treês arquétipos que podem auxiliar no entendimento de nossas vidas : “Eu sou independente, carente, equilibrado ou desorganizado?”.

Vamos começar pelo independente. Esse é aquele que se vira sozinho, não gosta de depender dos outros e acha que mostrar fraqueza é coisa de amador. Ele prefere focar no que precisa ser feito e seguir em frente, sem ficar remoendo sentimentos. Sua casa é minimalista, organizada, sem muitos objetos sentimentais. Ele gosta de esportes individuais, como uma caminhada ou uma corrida solitária. Reuniões familiares? Só se for inevitável. Esse cidadão/cidadã é aquele(a) que, quando perguntam se precisa de ajuda, responde: “Não, eu dou um jeito”. E dá mesmo. Mas, cá entre nós, será que ele não está apenas se escondendo atrás de uma armadura emocional?

Fica o questionamento.

No outro extremo, temos o carente. Esse é aquele que precisa do seu espaço, mas só se for ao lado de alguém. Ele fica bem sozinho, mas prefere estar cercado de gente. Ficar longe das pessoas o deixa desconfortável, e ele tenta se distrair ao máximo para não encarar a solidão. Sua casa é cheia de objetos afetivos, fotos, lembranças. Ele adora aniversários, eventos familiares e redes sociais. É aquele que manda mensagem no WhatsApp só para ver se alguém responde. E, quando o namorado ou namorada viaja, ele já pensa em chamar alguém para dormir em casa. Será que ele não está apenas tentando preencher um vazio que, só ele mesmo pode preencher?

E o equilibrado? Esse é o cara que consegue encontrar um meio-termo entre estar presente e respeitar o próprio espaço. Ele gosta de estar em uma relação, mas também consegue ficar bem sozinho. Não sente a necessidade de exigir muito do parceiro ou de se anular para agradar. Quando algo dá errado, ele fica triste, mas consegue lidar com isso e seguir em frente. Sua casa é um lugar tranquilo e acolhedor, onde ele pode relaxar e aproveitar o tempo sozinho ou com os outros. Ele divide seu tempo entre estar com as pessoas que ama e fazer coisas que o deixam feliz. Será que ele não é o verdadeiro mestre da vida, aquele que encontrou o equilíbrio entre a solidão e a companhia?

Temos então,  o desorganizado. Esse é aquele que vive uma montanha-russa emocional. Num momento, ele demonstra muito afeto, de forma intensa e até romântica. No instante seguinte, se afasta ou reage com frieza. Ele quer proximidade, mas tem medo de ser ferido ou rejeitado. Ao menor sinal de dificuldade no relacionamento, ele se fecha para não sofrer. Mesmo quando está com quem ama, às vezes sente que não está recebendo o suficiente. É como se tivesse um vazio dentro de si que nunca se preenche completamente. Será que ele não está apenas tentando encontrar um porto seguro em meio a um mar de incertezas?

E você, em qual desses cenários se enquadra? Será que você é o independente, o carente, o equilibrado ou o desorganizado? Ou será que, em algum momento da vida, você já foi um pouco de cada? A verdade é que, no fim do dia, todos nós estamos apenas tentando encontrar nosso lugar no mundo, seja ele minimalista, afetivo, tranquilo ou caótico. E, talvez, o segredo seja aceitar que, em algum momento, todos nós somos um pouco de tudo isso.

A vida, de fato, é uma experiência cheia de nuances, mas se tomarmos uma perspectiva psicanalítica e científica sobre o desenvolvimento humano, podemos olhar para os cenários mencionados: o independente, o carente, o equilibrado e o desorganizado, como manifestações de diferentes estágios da nossa psique.

Freud, por exemplo, nos ensina que o ser humano está sempre em busca de equilíbrio entre nossos instintos, nossa consciência e as demandas da sociedade. A insegurança, ou sensação de carência, pode ser vista como um reflexo do desejo inconsciente de encontrar nossa identidade e nosso lugar no mundo. Isso está diretamente relacionado com o conceito de “desamparo” de Winnicott, onde a capacidade de depender de outros e ao mesmo tempo aprender a ser autossuficiente são aspectos fundamentais do desenvolvimento psicológico saudável.

Além disso, a teoria do apego de Bowlby pode explicar essas diferentes formas de se relacionar. Os indivíduos com padrões de apego seguro tendem a ser mais equilibrados, conseguindo estabelecer relações saudáveis, tanto com os outros quanto consigo mesmos. Já aqueles com apego inseguro, como o ambivalente, podem apresentar características de carência ou desorganização, sempre em busca de validação externa. O apego evitante, por outro lado, reflete a busca pela independência, frequentemente associada a um medo de intimidade ou vulnerabilidade.

A ciência também nos lembra que, à medida que envelhecemos, passamos por transformações, tanto biológicas quanto psicológicas. A neuroplasticidade nos permite reconfigurar nossa forma de ser e viver, tornando possível a adaptação. Em outras palavras, não somos apenas o reflexo de nossas experiências passadas, mas também a soma das possibilidades que podemos criar no presente, sempre em constante reconfiguração.

A moral filosófica que podemos extrair disso é que, ao longo da vida, a verdadeira paz interior não vem da fixação em um único modelo de comportamento, mas na aceitação das várias facetas de nosso ser. Ao longo do processo de individuação proposto por Jung, aprendemos a integrar nossas sombras  e assim encontramos um caminho mais autêntico e pleno de significado. Não é que devemos nos limitar a um tipo de persona, mas, sim, abraçar a multiplicidade de quem somos.

Portanto, a verdadeira sabedoria reside em perceber que todos nós estamos em constante transformação, transitando entre essas diferentes facetas, tentando encontrar equilíbrio. E como diria Nietzsche, “aquilo que não nos mata nos fortalece”. A vida não precisa ser vivida dentro de uma caixa, mas como uma jornada contínua de autodescoberta e evolução. Não importa onde você esteja agora, o importante é que você continue o movimento de se tornar mais você mesmo.

Talvez a felicidade seja menos sobre encontrar um lugar fixo e mais sobre se permitir existir plenamente em cada um dos cenários da vida. Mas, ao contrário de simplesmente esperar pela cortina final, devemos dançar, mesmo que errando os passos, pois é na imperfeição que reside a beleza da experiência humana.