O Brasil inventou muita coisa. O futebol bonito, o samba triste, o jeitinho, a novela das oito, a corrupção elegante. Mas a maior invenção brasileira, e ninguém dá o devido crédito, é o voto de protesto. Que é quando o cidadão, farto de votar em ladrão, resolve votar em idiota. Por princípio.

Manuel Gomes quer ser deputado federal.

Você não sabe quem é Manuel Gomes. Sabe quem é Caneta Azul. Que é a mesma pessoa, só que famosa. Tem uma entrevista circulando. O repórter pergunta sobre saúde. Manuel diz que vai cuidar da saúde. Pergunta sobre educação. Manuel diz que vai melhorar a educação. Pergunta sobre segurança. Manuel concorda que segurança é importante. Até aqui, igual a todo político. A diferença é que Manuel sorri. Os outros mentem com solenidade. Ele mente com graça, que é mais honesto.

A linhagem é antiga. Em 1988, o Rio de Janeiro votou num chimpanzé chamado Tião. Quatrocentos mil votos. Terceiro lugar. Mais que Roberto Jefferson: o que, sabendo o que sabemos hoje, transforma o episódio de piada em profecia. Quando Tião morreu, o prefeito decretou luto oficial. Oito dias.

Repito: oito dias de luto pelo macaco. Pelos políticos, nenhum. Porque os políticos não morrem, eles se recandidatam. Depois veio o Tiririca, que ao menos tinha timing. O slogan era: Pior do que tá, não fica. O Brasil votou convicto. E ficou pior: o que não abalou a fé do eleitorado no diagnóstico, só na terapia. Agora é o Caneta Azul. Que é a evolução natural da espécie: saímos do macaco, passamos pelo palhaço, chegamos ao homem que não sabe o que é um deputado federal mas está disposto a ser um.

Darwin explicaria. Millôr diria que Darwin foi otimista. O negócio é o seguinte. O eleitor brasileiro não é burro. É desesperado, que é diferente e em certos momentos, bem mais perigoso. Ele olha para a classe política, vê trinta anos de roubalheira com gravata, e conclui, com uma lógica cruel e impecável: já que vai ser ruim de qualquer jeito, pelo menos que seja engraçado.

É o hedonismo da derrota. A festa no naufrágio. A orquestra no Titanic, só que desta vez a orquestra votou no iceberg. Há, porém, um detalhe técnico que os entusiastas do voto de protesto costumam ignorar. No Brasil, o cociente eleitoral faz com que você vote no Caneta Azul e eleja o dono da legenda: aquele senhor de terno que colocou o famoso na chapa exatamente para isso. Como um fazendeiro que solta o boi na frente e espera o gado seguir.

Você protesta. Ele agradece. Millôr Fernandes disse que em política não há nada mais velho que o novo. Cada eleição, o Brasil compra novidade. Cada eleição, descobre que a embalagem mudou e o conteúdo piorou. E na próxima eleição compra de novo: porque a memória é curta e a esperança é teimosa, duas qualidades que, juntas, formam o eleitor perfeito.

Manuel Gomes sorri para a câmera. O empresário ri nos bastidores. Régis Tadeu se irrita, que é o papel do Régis Tadeu nessa história e na maioria das histórias. E o Brasil assiste.

Como sempre assistiu. Como sempre vai assistir. Com aquela mistura específica de vergonha, cumplicidade e inexplicável ternura que a gente sente pelas próprias tragédias, quando são pequenas o suficiente para dar risada, e grandes o suficiente para não conseguir parar.

A caneta azul escreve. O que ela assina, a gente vai descobrir na posse.