No século passado, o sujeito ostentava um palacete em Ipanema, um iate no Jardim Botânico: bairros que, diga-se de passagem, já foram coisa fina. A desigualdade era um negócio grosso, pesado, que dava para tocar com as mãos. Patrimônio, terra, um diploma pendurado na parede para impressionar as visitas.
Hoje? A ostentação do privilegiado é mais discreta, quase espiritual. É o retiro de silêncio em Monte Verde, a banheira de gelo no banheiro de mármore, a imersão presencial num curso para “pensar com clareza”. A nova elite não exibe bens, exibe atenção. Exibe a capacidade de, veja você só, conseguir olhar para uma árvore por dez minutos seguidos sem sentir um frio na espinha e uma vontade incontrolável de checar o telefone.
É isso. A desigualdade do nosso tempo é psíquica, quase psicanalítica. É a diferença entre quem tem e quem não tem um “eu” com densidade suficiente para filtrar o bombardeio do mundo. O sujeito moderno é um balde furado: entra informação por um lado, vaza sentido pelo outro. O fast food mental virou a dieta base. E a lógica é a mesma do salgadinho de pacote: uma conveniência que sacia o desejo imediato de estímulo, mas que, a longo prazo, definha o órgão, no caso, o cérebro.
Este conteúdo rápido, esta papinha de algoritmos, não alimenta o pensamento. Ele treina o cérebro para um vício: o vício de querer mais do mesmo. É um ciclo de auto-cannibalismo neural. O pensamento crítico, aquele que exige tédio, elaboração e um certo desespero criativo, vai sendo atrofiado. As pessoas não aguentam mais cinco minutos na fila do banco sem escancarar a alma para uma timeline infinita. Perguntam para as Inteligências Artificiais como se fossem um oráculo, sem nem ao menos formular a pergunta direito na própria cabeça. Não é que sejam burras. É que o senso de urgência as sequestrou.
E as IAs, que são uma maravilha da técnica, uma espécie de biblioteca de Alexandria de bolso, viram, na pressa, a muleta definitiva. Uma pesquisa recente da Universidade de Cambridge com mais de 600 estudantes mostrou o óbvio ululante: quando a IA vira um atalho constante, a autonomia cognitiva murcha. O link está aqui, para quem ainda tem fôlego para ler mais de 280 caracteres: [Cognitive Offloading: The Diminishing Returns of Using AI as a Crutch]. O problema, repito, não é a ferramenta. É a substituição do esforço. É a terceirização da sinapse.
O que as pesquisas em neurociência já associam há tempos a esse excesso de estímulo digital é um declínio nas funções executivas. Coisas chatas e essenciais, como foco sustentado, memória de trabalho (aquela que te permite manter uma ideia na cabeça por mais de seis segundos) e a autorregulação, a capacidade de não gritar com o garçom porque o wifi está lento. Os efeitos são sorrateiros, não chegam para todos no mesmo pacote, mas a tendência é clara: a atenção profunda, aquele recurso cognitivo, virou um bem de luxo. Um novo abismo, invisível e silencioso, está se abrindo.
E adivinhe de onde ele parte? Do berço. Estudos, como os compilados pela American Academy of Pediatrics, mostram que crianças de famílias com menor renda passam, em média, até duas horas a mais por dia em frente a telas do que as de famílias mais abastadas. Este link, de uma fonte séria, detalha o problema: [Screen Time and Children]. Esse padrão, meus senhores, não é inocente. Ele se conecta, antes da adolescência, a diferenças no desenvolvimento da linguagem, no controle da atenção e no desempenho escolar. A casa, o ambiente, já estão fabricando a nova divisão de classes: a entre os que usam a tecnologia para pensar melhor e os que são usados por ela para não pensar.
Eis o grande paradoxo: temos todo o conhecimento do mundo na palma da mão, mas estamos criando uma geração de anêmicos mentais, sem o “corpo” cognitivo: a musculatura do questionamento, o anticorpo do ceticismo, para fazer uso dele.
É o que eu sempre digo: o homem moderno, com um smartphone na mão e o cérebro no modo avião, é o ser mais desinformadamente conectado da história. Uma tragédia cômica, para não chorar.
Referências Bibliograficas:
Nicholas Carr — “The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains”: Resenha e discussão no The Guardian: https://www.theguardian.com/technology/2010/jun/06/internet-brain-neuroscience-debate
James Williams — “Stand Out of Our Light”: Artigo do autor no The Guardian sobre o tema: https://www.theguardian.com/technology/2018/may/05/how-technology-disrupts-thinking
Pesquisa sobre o impacto dos motores de busca na memória (Nature): https://www.nature.com/articles/s41562-021-01146-0
UNESCO — IA e Educação (alertas sobre dependência):
https://www.unesco.org/en/digital-education/ai-education
American Psychological Association — “Digitally Distracted”: https://www.apa.org/monitor/2024/01/digitally-distracted
American Academy of Pediatrics — “Screen Time and Children”: https://www.healthychildren.org/English/family-life/Media/Pages/where-we-stand-tv-viewing-time.aspx
Estudo sobre disparidades socioeconômicas no tempo de tela (PubMed): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33766895/


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