Existe uma cruz que só o sujeito inteligente carrega. Não é a de madeira, é a da garganta: a vontade incontrolável de explicar. Explicar tudo. Explicar sempre. Explicar até quando ninguém pediu.

É como se a inteligência viesse com um manual de instruções embutido no cérebro, e o sujeito, coitado, acha que foi escolhido para traduzir o mundo para a humanidade. Uma espécie de missionário da lógica. Um catequista do óbvio.

A torneira pinga? Ele explica a hidráulica. O ônibus atrasou? Ele explica a crise do transporte público, o capitalismo tardio e, se der tempo, a infância mal resolvida do motorista. E explica com carinho. Com paciência. Com exemplos. Desenha no guardanapo. Usa metáforas. Fala devagar, como quem conversa com uma criança. Ou com um marciano recém-chegado ao planeta.

Do outro lado, a pessoa escuta. Ou finge. Está ali, balançando a cabeça, mas por dentro já decidiu duas coisas: Você é um chato! E ela não quer entender absolutamente nada

Ela não quer compreensão, quer razão. Ou quer apenas que você pare de falar para poder contar a história do cachorro que comeu o pão de queijo Aí acontece o momento psicanalítico: a ficha não cai. Cai o seu queixo. Você percebe que está falando sozinho. Vinte minutos explicando o azul para um daltônico que, no fundo, acha que azul é frescura. “Tudo isso pra quê? Hoje o céu tá cinza.”

E o que o sujeito inteligente faz? Insiste. “Não, veja bem…

Deixa eu tentar por outro ângulo…” “O azul é como o mar…” “O mar hoje tá sujo”, responde o daltônico, já sem paciência.

Meu(minha) amigo(a), pare. Schopenhauer, um alemão pouco simpático e muito lúcido, já avisava: contra a burrice, até os deuses brigam e perdem. E você, convenhamos, não é um deus. No máximo, um filho elogiado pela mãe. A grande inteligência não está em explicar tudo. Está em saber a hora de calar a boca.

Psicanaliticamente falando, nem toda resistência é falta de entendimento. Às vezes é só desinteresse mesmo. Algumas portas não estão fechadas porque a chave é errada. Estão fechadas porque do outro lado não tem nada. Você grita “Olá!” e o eco responde “Deixa pra lá”.

Guarde sua sabedoria. Como quem guarda um vinho caro. Não se serve Gran Reserva para quem gosta de refrigerante com gelo. É desperdício, e ainda fazem careta. Fale de futebol. Da novela. Do preço da banana. Sorria. Mude de assunto. Sua saúde mental agradece.

A pessoa realmente inteligente não é a que tem todas as respostas. É a que sabe para quem não vale a pena responder. É um alívio. Um descanso psíquico. Como tirar um sapato apertado no fim do dia. Você não é professor de ninguém. E a maioria das pessoas não quer ser sua aluna. Elas só querem que você assine a lição de casa que já fizeram errada.

Então feche o manual. Guarde a sabedoria no bolso. E, quando der aquela coceira na língua para explicar o óbvio, lembre-se do velho conselho: é melhor ficar quieto e parecer burro do que abrir a boca e confirmar a suspeita. No seu caso, fique quieto e preserve a inteligência. Deixe a burrice alheia em paz, no seu habitat natural: o mundo.

Se todo mundo fosse inteligente, quem iria assistir aos programas de auditório?